sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Noves fora, nada.

A cidade é só a cidade, o lugar onde eu moro. Viver não, que viver eu vivo aqui, dentro de mim. O escritório é só um escritório, como outro qualquer, o lugar onde eu trabalho, trabalho que paga minhas contas e que preenche as horas vazias do meu dia. O dia é só mais um dai, mais um dos 11880 dias da minha existência, vida não, que vida não é só isso. Vida é mais que perder tempo calculando quantos dias se passaram desde que eu fui arrancado da caverna escura e úmida de onde eu provim. A janela é só uma tela de vidro com imagens em movimento; movimento, mas nem tanto. O movimento é sempre o mesmo e as pessoas são sempre as mesmas Até o frenesi da cidade, por ser sempre o mesmo, é modorrento. Tudo parece tão igual, dentro e rora do escritório, que o mundo , às vezes, parece parar, ou , pelo menos, andar em marcha lenta. Tudo apenas passa, mas não é capturado por minha mente, Ouço o bate-bate dos carimbos, o risque-risque das canetas, o plaque-plaque, toque-toque dos passos, o zum-zum das falas. Tudo se misturando num borrão indistinto. Todo o tempo o tempo todo se misturando e escorrendo, como tinta fresca jogada contra a janela da minha mente. "tudo que é sólido se desmancha no ar'. Um pássaro levanta voo e passa rente à minha janela. Um pássaro voou ou foi o tempo? As ideias perambulam por minha cabeça, zanzando feito moscas tontas, ricocheteando no para-brisa dos meus olhos; vez por outra, fugindo pelos meus ouvidos. Passo a língua pelo céu da minha boca e estalo os lábios, O tédio tem gosto de café frio, amanhecido. Abro a boca num bocejo desmaiado, desmedido. O relógio tiquetaqueia, puxando mais um minuto da minha existência. Tamborilo os dedos na mesa, num batuque descompassado. Abro os braços, espreguiçando-me preguiçosamente. Essa é toda a agitação do meu dia. Estou aqui apenas para manter o ar em movimento.
Passatempo, o tempo passa... Os papéis se acumulam em minha mesa. Lê, carimba, assina. Esse aqui volta para o lugar de onde veio. Falta uma assinatura. Lê, carimba, assina. Cafezinho. Meu trabalho é muito importante... para uma outra pessoa. Qualquer outro que não eu. Colado ao balcão da copa, olho ao redor. Sobre a minha mesa, deve haver meio hectare de floresta desmatada transformado em papel. O que seria de todos nós se não fosse a burocracia? Sem a burocracia haveria menos papéis para carimbar; menos papéis, menos árvores sendo cortadas; menos árvores cortadas, mais ar para respirarmos. Logo, sem a burocracia,  haveria mais ar para respirarmos. Matemática simples.
Não me entendam mal. Eu não odeio a burocracia; afinal, é ela que põe pão na minha mesa. Eu odeio os burocratas, porque - noves fora,
nada - são eles que acabam com o ar que eu respiro.
Se não acabam, pelo menos, tornam-no mais poluído.

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